TERÇA-FEIRA, 13 DE OUTUBRO DE 2026 - Horário 10:52
CONTEUDO DE MARCA - OGlobo - O luxo de ter tempo: uma agenda lotada nem sempre significa uma vida plena
Reservar espaço para atividades sem finalidade produtiva pode ser um contraponto a uma rotina cada vez mais pautada pela ideia de eficiência
Momentos de pausa também podem fazer parte de uma rotina mais equilibrada
Desde que entrou na vida adulta, Ana Contti se acostumou a medir os dias pela quantidade de compromissos. Reuniões, projetos, prazos, problemas para resolver. Em casa, duas filhas pré-adolescentes e um pai idoso também precisavam dela. Para si, nunca sobrava tempo.
Trinta anos depois, a conta mudou.
— Tomei um susto quando percebi que tinha menos tempo pela frente do que o tempo que já tinha vivido — conta a influenciadora.
A constatação trouxe à tona uma reflexão: será que ela estava usando o tempo com o que realmente fazia sentido ou apenas vivendo ocupada?
A resposta levou a uma mudança radical. Ana deixou a carreira executiva, começou uma reinvenção profissional e, principalmente, aprendeu a dizer “não”.
Depois de décadas associando uma agenda cheia a eficiência e importância, no entanto, o vazio incomodava.
— Sentia culpa. Era como se não merecesse aquele tempo, parecia que estava sempre devendo alguma coisa.
Só então entendeu que precisava parar de medir seu valor pela quantidade de coisas que conseguia fazer.
— Cumprir tarefas e sentir satisfação são experiências diferentes. A primeira está ligada a metas, compromissos e responsabilidades. A segunda inclui sentido, prazer, vínculos, autonomia e descanso — aponta a neuropsicóloga Priscila Gasparini Fernandes.
Segundo ela, é possível passar o dia resolvendo demandas e chegar à noite com a sensação de que não fez nada. Simplesmente porque faltou justamente aquilo que importa:
— O excesso de compromissos cobra um preço da atenção. Alternar o dia inteiro entre mensagens, reuniões, notificações e tarefas exige que o cérebro interrompa e reconstrua o foco repetidas vezes.
Acumuladas, essas pequenas trocas podem aumentar a dispersão e a exaustão mental. Sem intervalos, não é raro chegar ao fim do dia com o corpo parado e a cabeça ainda funcionando em ritmo de urgência.
— É nos momentos de menor exigência que o cérebro consegue organizar experiências, processar emoções e abrir espaço para pensamentos espontâneos — diz Priscila.
Quando até o lazer vira tarefa
A dificuldade é enxergar o descanso como parte da vida, e não como uma recompensa por tudo o que foi cumprido.
— Estar sempre ocupado virou uma espécie de sinal de valor pessoal. Quanto mais cheia a agenda, mais necessária, produtiva ou bem-sucedida a pessoa se sente.
O problema é que a lista de tarefas raramente termina. Sempre existe uma mensagem para responder, uma pendência ou algo que poderia ser adiantado.
— Se não prestarmos atenção, até o lazer pode entrar na lógica da produtividade.
A corrida ganha metas de distância e tempo; a leitura, um número de livros por ano; um hobby rapidamente vira projeto.
Com o tempo que Ana ganhou, vieram a meditação, as atividades ao ar livre, as viagens, a convivência com a família e momentos aparentemente banais, como tomar um café com calma.
Foi nesse espaço que começou também a produzir conteúdo e construiu uma comunidade de mulheres na internet.
— Hoje, gosto de ter períodos sem função produtiva definida. Às vezes quero simplesmente estar em casa, pensar em alguma ideia ou não fazer absolutamente nada.
Na perspectiva da longevidade, preservar esses espaços ganha outra importância. Relações sociais mobilizam atenção, memória, linguagem, interpretação de emoções e flexibilidade de pensamento.
— Ter interesses próprios também mantém diferentes capacidades em uso. Aprender algo, praticar atividade física, cozinhar, estudar, tocar um instrumento ou dançar são formas de continuar exercitando o cérebro e ajudam a construir reserva cognitiva — explica Priscila.
Não se trata, portanto, de esvaziar a agenda. Uma rotina intensa pode ser saudável e satisfatória. A diferença está em quanto desse tempo é ocupado apenas por demandas externas e quanto ainda guarda espaço para escolhas, relações e interesses pessoais.
Hoje, em vez de pensar se consegue encaixar determinado compromisso em seu dia, Ana pensa se ele vale seu tempo. Com isso, descobriu uma coisa que mudou sua relação com a própria rotina:
— Cabe muito mais de mim na minha própria vida — diz.
E, para ela, descobrir isso também significou perceber que nem todo tempo precisa ser preenchido.
É nos momentos de menor exigência que o cérebro consegue organizar experiências, processar emoções e abrir espaço para pensamentos espontâneos
Como abrir espaço na rotina
Revise os compromissos: pergunte-se quais atividades são realmente importantes e quais podem ser adiadas, delegadas ou eliminadas.
Reserve tempo sem agenda: deixe alguns períodos livres, sem definir antecipadamente como serão usados.
Não transforme todo hobby em meta: leia, caminhe, cozinhe ou pratique uma atividade pelo prazer, sem necessariamente estabelecer resultados a alcançar.
Faça uma coisa de cada vez: reduzir a alternância constante entre tarefas ajuda a preservar a atenção e diminui a sensação de urgência.
Reaprenda a descansar: o descanso não precisa ser uma recompensa depois de tudo cumprido. Ele também pode ocupar um lugar próprio na rotina.
Pergunte se vale seu tempo: antes de aceitar um novo compromisso, considere não apenas se ele cabe na agenda, mas se faz sentido para você.