SEGUNDA-FEIRA, 24 DE AGOSTO DE 2026 - Horário 6:01

CONTEUDO DE MARCA - Valor - Especialista internacional indica tecnologia e diálogo como chaves para regular bets

Charmaine Hogan, que atuou na política de Jogos e Apostas da União Europeia, abriu o evento “Desafios pós-regulação do mercado de apostas”, promovido pela ANJL




Charmaine Hogan, que hoje atua na Playtech, nos telões do seminário “Desafios pós-regulação do mercado de apostas”


É fundamental haver diálogo entre todos os atores envolvidos no mercado de apostas de quota fixa, conhecidas como bets, para chegar a uma regulação que proteja o apostador e não impeça o desenvolvimento do setor. Essa é a opinião da maltesa Charmaine Hogan, diretora global de Relações Governamentais da Playtech, empresa líder em tecnologia para jogos de apostas e uma das mulheres mais influentes do mundo no setor de iGaming, na palestra de abertura do seminário “Desafios pós-regulação do mercado de apostas”.
Nesse processo, ela acredita também que a tecnologia deva ser fortalecida para que seja possível entender os sinais emitidos por cada jogador. Promovido pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) no dia 14 de agosto, em São Paulo, o evento foi produzido pela Editora Globo e recebeu onze especialistas que se dividiram em três painéis. O evento foi pensado para debater as melhores práticas no setor das bets neste ano e meio de mercado regulado. É um tempo ainda curto, se comparado com outras jurisdições, mas que deixa o Brasil em um momento muito especial, na visão de Charmaine Hogan:
“O Brasil é um caso muito interessante porque está começando a regulação agora e coloca uma ênfase muito grande na proteção aos consumidores. A importância do que está acontecendo é que a gente tem dados e tecnologia para analisar jogadores individualmente, interagindo com eles. O risco, quando eles não são olhados de forma individual, é ter uma proteção muito alta para uns e baixa para outros. O Brasil está fazendo um trabalho excelente nesse sentido”, disse Hogan.
O Brasil é um exemplo interessante porque está começando a regulação agora e valoriza a proteção dos consumidores. A importância do que está acontecendo é ter dados e tecnologia para analisar cada jogador
Com experiência no desenvolvimento de políticas públicas para o setor, atuando em nome da União Europeia, Charmaine aponta para o que considera outro ponto crucial no desenvolvimento de mercados regulados.
Segundo ela, os jogadores costumam escolher a marca porque confiam nela, não só porque ela está no mercado licenciado.
“Para lutar contra o mercado ilegal, devemos criar a confiança no mercado legal, tendo o bom funcionamento dos pagamentos. Os reguladores têm que garantir que estão fazendo o suficiente, endereçar as questões básicas, entender o motivo de existir um mercado ilegal na sua indústria, no seu país”, afirmou.
O exemplo que vem de fora
Como está começando praticamente agora, o Brasil pode olhar para outros mercados. A ideia, porém, é buscar soluções que se adaptem à realidade brasileira. Hogan lembrou o desafio que enfrentou ao trabalhar com mercados europeus para ajudar a construir a ponte entre a indústria e os reguladores.
“Criamos dados, fizemos pesquisas, para que os reguladores entendessem que uma coisa é ter políticos com boas intenções e outra é que as regras funcionem. Tem que existir uma espécie de compliance das leis, e para isso é importante que as regras sejam claras. É importante que haja confiança mútua”, disse a especialista.
Hogan citou mercados, como Dinamarca e Grã Bretanha, que conseguem uma taxa de canalização — indicador que mede a porcentagem de apostas feitas em sites licenciados — de 80% a 90%. Para ela, esse resultado é alcançado quando há diálogo entre reguladores, operadores e todos os stakeholders. E destaca que é importante enfrentar a pergunta: por que existe mercado ilegal na indústria do país? O universo atual das operadoras mostra que elas podem ter atitude proativa no cuidado com os seus jogadores. Hogan acredita que isso pode criar uma abordagem sustentável, dividindo a responsabilidade sobre os apostadores.
Brasil propõe criação de tratado latino-americano
No primeiro painel, Plínio Lemos, presidente da ANJL; Luiz Otávio Veríssimo Teixeira, presidente do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva; e Giovanni Rocco, secretário nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte do Ministério do Esporte
Flavio Santana
O presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Lemos, abriu o primeiro painel do seminário com uma crítica ao discurso que está orientando o debate sobre o mercado regulado das bets. Segundo ele, circulam muitas inverdades, que mancham a imagem das empresas e acabam por fortalecer o mercado ilegal.
“Não podemos deixar que as narrativas falsas ganhem força. Temos que prestigiar a empresa regulada, que está aqui como concessionária, acreditando no Brasil, e separá--la das ilegais, que não têm responsabilidade alguma. Somos os maiores interessados em que esse mercado criminoso seja combatido — afirma Plínio, lembrando que o setor faz um grande esforço para ajudar o governo”, disse. “Atualmente, estamos ajudando a aparelhar a Polícia Federal”.
Somos os maiores interessados no combate a esse mercado criminoso, e daí vem nosso esforço para ajudar, o que fazemos de várias maneiras, inclusive com laboratórios e pesquisas
A mesa do primeiro painel foi composta também por Giovanni Rocco, secretário nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte, do Ministério do Esporte e por Luís Otávio Veríssimo Teixeira, presidente do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Rocco elogiou a iniciativa da ANJL junto à Polícia Federal, que tem entre suas atribuições o combate às empresas clandestinas, que são criminosas. Recentemente, a Lei 15.480, sancionada pelo governo federal, determina que 3% da arrecadação das apostas deve ir para o Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-Fim da Polícia Federal (Funapol).
Rocco disse que é muito importante o debate do painel, que tratou dos avanços e dos desafios do setor, porque “é com conhecimento que vamos acabar com o mercado ilegal”. Ele lembrou que o Brasil formalizou um pedido de adesão à Convenção de Macolin, tratado europeu para prevenir a manipulação de resultados e fraudes no esporte. E anunciou que o país quer liderar, na América Latina, uma convenção com o mesmo objetivo.
“A líder de compliance e integridade da Conmebol, Graziela Garay, virá ao Brasil para dar início a essa agenda. É uma contribuição para a proteção da integridade dos resultados”, disse Rocco.
Acho muito importante o debate que estamos fazendo neste painel porque é com conhecimento que vamos começar a acabar com o mercado ilegal. Estamos liderando essa discussão aqui na América Latina
Luis Otávio Veríssimo lembrou que o Brasil é referência como o país que mais puniu a ilegalidade nas apostas a partir de operações do Ministério Público e da Polícia Civil e Federal no contexto de manipulação de resultados. O problema é encontrar os criminosos que não têm rosto:
“Tanto para o STJD quanto para o governo federal e para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), é importante saber com quem se está conversando, daí a necessidade do mercado regulado, que tem associações (como a ANJL). Os problemas são comuns, mas é preciso sentar à mesa e olhar nos olhos um do outro para resolvê-los”, disse Veríssimo.
O presidente do STJD corroborou o que Plínio Lemos disse no início do painel, lembrando que é preciso tomar cuidado para não contaminar o mercado regulado com acusações infundadas.
Somente a partir de uma discussão pública às claras e de uma diferenciação que separe as casas reguladas das ilegais será possível, cada vez mais, falar de bets sem precisar sentir vergonha das bets
“Hoje, dos 20 clubes da série A, 14 têm patrocínio máster de bets e outras formas indiretas de incentivo. A partir de uma discussão pública às claras e de uma diferenciação que separe as casas reguladas das ilegais, será possível, cada vez mais, falar de bets sem sentir vergonha das bets”, disse Luís Otávio Veríssimo.
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